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Gasometria arterial: valores de referência, interpretação e como é feita

Resposta rápida

A gasometria arterial mede, no sangue de uma artéria, o pH, a PaCO₂, a PaO₂, o bicarbonato e o excesso de base e mostra como estão a oxigenação, a ventilação e o equilíbrio ácido-base. Referência em adultos: pH 7,35–7,45, PaCO₂ 35–45 mmHg, HCO₃⁻ 22–26 mEq/L e PaO₂ 80–100 mmHg em ar ambiente. Interprete em ordem: pH, processo primário, compensação e ânion gap.

O que é a gasometria arterial e para que serve?

É um exame de sangue colhido de uma artéria que responde a três perguntas ao mesmo tempo: o paciente está oxigenando bem (PaO₂, SaO₂, PaO₂/FiO₂), está ventilando bem (PaCO₂) e como está o equilíbrio ácido-base (pH, bicarbonato, excesso de base). Os analisadores modernos acrescentam lactato, eletrólitos, glicose, hemoglobina e as frações de carboxihemoglobina e metemoglobina.

Para aplicar as fórmulas de compensação, ânion gap e delta-delta direto nos seus valores, use a calculadora de gasometria arterial.

Quais são os valores de referência da gasometria arterial?

Valores de referência da gasometria arterial em adultos (nível do mar, ar ambiente)
ParâmetroReferência
pH7,35 a 7,45
PaCO₂35 a 45 mmHg
PaO₂80 a 100 mmHg (diminui com a idade)
SaO₂95 a 100%
Bicarbonato (HCO₃⁻)22 a 26 mEq/L
Excesso de base−2 a +2 mEq/L
LactatoAbaixo de 2 mmol/L
PaO₂/FiO₂Acima de 400 (normal); 300 ou menos: hipoxemia importante

As faixas mudam um pouco entre laboratórios, analisadores e altitudes. Use a referência do laudo e registre a FiO₂ ao colher: sem ela, a PaO₂ não pode ser interpretada.

Como interpretar uma gasometria arterial, passo a passo?

  1. pH: abaixo de 7,35, acidemia; acima de 7,45, alcalemia. Um pH normal não exclui distúrbio: pode haver compensação completa ou distúrbios opostos.
  2. Processo primário: acidemia com PaCO₂ alta é acidose respiratória; acidemia com bicarbonato baixo é acidose metabólica. Alcalemia com PaCO₂ baixa é alcalose respiratória; com bicarbonato alto, alcalose metabólica.
  3. Compensação: confira se o outro componente respondeu como esperado (tabela abaixo). Resposta fora do esperado sugere distúrbio associado.
  4. Ânion gap: na acidose metabólica, calcule Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻) e corrija pela albumina. Veja a calculadora de ânion gap.
  5. Delta-delta: compara o aumento do gap com a queda do bicarbonato para flagrar distúrbio misto (delta-gap e delta-ratio).
Regras de compensação
Distúrbio primárioResposta esperada
Acidose metabólicaPaCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 (± 2) — fórmula de Winter
Alcalose metabólicaPaCO₂ sobe cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de aumento do bicarbonato
Acidose respiratória agudaBicarbonato sobe 1 mEq/L para cada 10 mmHg de aumento da PaCO₂
Acidose respiratória crônicaBicarbonato sobe 3,5 a 4 mEq/L para cada 10 mmHg de aumento da PaCO₂
Alcalose respiratória agudaBicarbonato cai 2 mEq/L para cada 10 mmHg de queda da PaCO₂
Alcalose respiratória crônicaBicarbonato cai 4 a 5 mEq/L para cada 10 mmHg de queda da PaCO₂

Detalhes de causas e conduta da forma mais frequente estão no guia de acidose metabólica.

Como é feita a coleta e a gasometria arterial dói?

A artéria mais usada é a radial, depois da verificação da circulação colateral (teste de Allen modificado); braquial e femoral são alternativas. A coleta usa seringa heparinizada própria, sem bolhas de ar (que alteram PO₂ e PCO₂), identificada com a FiO₂ e a temperatura. Depois da punção comprime-se o local por cerca de 5 minutos (mais tempo em quem usa anticoagulante).

Sim, dói mais do que a coleta venosa, mas é breve; anestésico local pode ser usado. As complicações, raras, são hematoma, espasmo arterial, dor persistente e, excepcionalmente, lesão da artéria. A amostra deve ser analisada em até 15 a 30 minutos.

Qual a diferença entre gasometria arterial e venosa?

A gasometria venosa periférica é mais simples e útil para triar. Em relação à arterial, o pH venoso é cerca de 0,03 a 0,05 menor, a PCO₂ venosa é 4 a 6 mmHg maior e o bicarbonato é 1 a 2 mEq/L maior. Por isso o pH e o bicarbonato venosos acompanham bem os arteriais na cetoacidose e em outras acidoses, mas a PO₂ venosa não reflete a oxigenação. Para avaliar hipoxemia, insuficiência respiratória ou choque grave, colhe-se amostra arterial.

Quais erros mais alteram o resultado?

  • Bolhas de ar: aproximam PO₂ e PCO₂ dos valores do ar ambiente.
  • Heparina em excesso: dilui a amostra e reduz PCO₂ e bicarbonato.
  • Atraso na análise: metabolismo dos leucócitos reduz PO₂ e pH.
  • FiO₂ não registrada: impede interpretar a PaO₂.
  • Amostra venosa ou mista: PO₂ baixa demais para uma artéria.
Já tem os valores da gasometria?
A calculadora aplica Winter, ânion gap corrigido e delta-delta.
Abrir a calculadora de gasometria →

Perguntas frequentes

Para que serve a gasometria arterial?

Avalia a oxigenação (PaO₂, SaO₂), a ventilação (PaCO₂) e o equilíbrio ácido-base (pH, bicarbonato, excesso de base). É usada na insuficiência respiratória, no choque, na cetoacidose, na intoxicação, na doença renal grave e no ajuste da ventilação mecânica.

Quais os valores normais da gasometria arterial?

pH 7,35 a 7,45; PaCO₂ 35 a 45 mmHg; PaO₂ 80 a 100 mmHg em ar ambiente (cai com a idade); SaO₂ 95 a 100%; bicarbonato 22 a 26 mEq/L; excesso de base de −2 a +2 mEq/L; lactato abaixo de 2 mmol/L. Cada laboratório define a sua faixa.

Como interpretar uma gasometria arterial?

Em cinco passos: 1) veja o pH (acidemia ou alcalemia); 2) identifique o processo primário pela PaCO₂ e pelo bicarbonato; 3) confira se a compensação é adequada (Winter e regras de compensação); 4) calcule o ânion gap, corrigido pela albumina; 5) use o delta-delta para procurar distúrbio misto.

A gasometria arterial dói?

Dói mais que a coleta venosa, porque a artéria é mais sensível, mas é um desconforto breve. Em geral usa-se agulha fina na artéria radial e, quando possível, anestésico local. Depois da punção comprime-se o local por cerca de 5 minutos para evitar hematoma.

Qual a diferença entre gasometria arterial e venosa?

Em relação à arterial, a venosa tem pH cerca de 0,03 a 0,05 mais baixo, PCO₂ 4 a 6 mmHg mais alta e bicarbonato 1 a 2 mEq/L maior. Serve para triar acidose e hipercapnia, mas não mede a oxigenação: PaO₂ exige amostra arterial.

Quanto tempo a amostra pode esperar até ser analisada?

O ideal é analisar em até 15 a 30 minutos. Os leucócitos continuam consumindo oxigênio e produzindo ácido na seringa, o que altera PO₂, pH e lactato. Se houver atraso, siga a orientação do laboratório (em geral, amostra em gelo).

O que são PaO₂/FiO₂ e por que importam?

É a razão entre a pressão arterial de oxigênio e a fração inspirada de oxigênio, e mede a eficiência da troca gasosa independentemente do oxigênio ofertado. Acima de 400 é normal; valores de 300 ou menos indicam hipoxemia importante, e na SDRA os cortes de 200 e 100 (com PEEP) definem gravidade moderada e grave.

Referências

  1. Berend K, de Vries APJ, Gans ROB. Physiological approach to assessment of acid–base disturbances. N Engl J Med. 2014;371:1434–1445.
    Esta fonte dá suporte a: Interpretação em etapas dos distúrbios ácido-base e dos quadros mistos.
  2. Kraut JA, Madias NE. Metabolic acidosis: pathophysiology, diagnosis and management. Nat Rev Nephrol. 2010;6:274–285.
    Esta fonte dá suporte a: Características, avaliação diagnóstica e princípios de manejo da acidose metabólica.
  3. ARDS Definition Task Force. Acute respiratory distress syndrome: the Berlin Definition. JAMA. 2012;307:2526–2533.
    Esta fonte dá suporte a: Critérios da definição de Berlim para síndrome do desconforto respiratório agudo.
  4. Byrne AL, et al. Peripheral venous and arterial blood gas analysis in adults: are they comparable? Respirology. 2014;19:168–175.
    Esta fonte dá suporte a: Comparação sistemática entre gasometria venosa periférica e arterial em adultos.
  5. Kelly AM. Review article: can venous blood gas analysis replace arterial in emergency care? Emerg Med Australas. 2016;28:3–10.
    Esta fonte dá suporte a: Limites práticos de substituir a análise arterial por gasometria venosa na emergência.

Conteúdo educativo, sem caráter de prescrição. Autoria: Dr. Carlos Eduardo Miranda Bruzzi Felipe, médico, com experiência em emergência pediátrica · CRM/MG 105.721. Atualizado em 11/10/2026. Veja também a calculadora de ânion gap e o guia de osmolaridade.